Sábado 02/01/2027
"Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois
o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a
impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça...” (Mário Quintana)
EVANGELHO DE HOJE
Jo 1,19-28
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, +
segundo João
— Glória a vós, Senhor!
Os líderes judeus
enviaram de Jerusalém alguns sacerdotes e levitas para perguntarem a João quem
ele era. João afirmou claramente:
- Eu não sou o Messias.
Eles tornaram a
perguntar:
- Então, quem é você?
Você é Elias?
- Não, eu não sou! -
respondeu João.
- Você é o Profeta que
estamos esperando?
- Não! - respondeu ele.
Aí eles disseram a João:
- Diga quem é você para
podermos levar uma resposta aos que nos enviaram. O que é que você diz a
respeito de você mesmo?
João respondeu, citando
o profeta Isaías:
- "Eu sou aquele
que grita assim no deserto: preparem o caminho para o Senhor passar."
Os que foram enviados
eram do grupo dos fariseus; eles perguntaram a João:
- Se você não é o
Messias, nem Elias, nem o Profeta que estamos esperando, por que é que você
batiza?
João respondeu:
- Eu batizo com água,
mas no meio de vocês está alguém que vocês não conhecem. Ele vem depois de mim,
mas eu não mereço a honra de desamarrar as correias das sandálias dele.
Isso aconteceu no
povoado de Betânia, no lado leste do rio Jordão, onde João estava batizando.
Palavra da Salvação
Glória a vós Senhor.
MEDITAÇÃO DO EVANGELHO
Padre Antonio Queiroz
No meio de vós está aquele que vem depois de
mim; eu não mereço desamarrar suas sandálias.
Este Evangelho narra o diálogo entre João
Batista e os enviados pelas autoridades de Jerusalém, a fim de lhe perguntarem
quem ele era. Nas respostas, João teve todo o cuidado para não se promover,
pois sua missão era anunciar o Messias, não a si mesmo.
A primeira pergunta que lhe fizeram foi: “Quem
és tu?” João respondeu: “Eu não sou o Messias”. Por si, ele devia responder
quem era, não quem não era. Mas havia o perigo de chamar a atenção sobre si
mesmo e o povo voltar-se para ele, não para Jesus.
Mas os enviados não ficaram satisfeitos e
insistiram: “Quem és então? És Elias?” João respondeu: “Não sou”. Eles
perguntaram: “És o Profeta?” João respondeu: “Não”. Veja que João era profeta.
O próprio Jesus disse que ele era o maior de todos os profetas. Acontece que o
verdadeiro profeta anuncia Cristo, e não a si mesmo.
Nesse momento, os enviados apelaram: “Quem és,
afinal? Temos de dar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de
ti mesmo?” Em outras palavras: Viemos aqui com a missão de saber quem é você.
Se voltarmos sem resposta, levaremos uma punição. Por isso nos ajude, por
favor!
João então colaborou, mas deu uma resposta
inspirada: “Eu sou a voz que grita no deserto: Aplainai o caminho do Senhor –
conforme disse o profeta Isaías”. A voz não tem consistência em si mesma; ela
logo desaparece, e só fica na nossa lembrança aquilo que ela significa. Boa
definição do profeta.
Mas isso bastou para vir o ataque: “Por que
então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” Em
resposta, João não deixou por menos: “Eu batizo com água; mas no meio de vós
está aquele que vós não conheceis”. O recado é também para nós. A humanidade
atual vive procurando o caminho, a verdade e a vida, mas deixando Cristo de
lado! “No meio de vós está aquele que vós não conheceis”. Vivemos tão
preocupados com as coisas do mundo que nos esquecemos de conhecer Jesus. Quem
ama entra dentro da vida da pessoa amada. Nós não queremos saber disso com
Jesus. É o catecismo da primeira comunhão, e olhe lá. O Espírito Santo conhece
Jesus porque o ama. Que o Espírito Santo nos mostre quem é Jesus realmente e
nos mova a procurar conhecê-lo melhor.
O mundo conhece os segredos da natureza, das
ciências e da técnica, mas conhece pouco o seu autor. O homem moderno é vítima
do seu próprio invento. Por isso, o elevado desencanto entre os jovens e
adultos pela sociedade em que vivemos; desemprego, violência, discriminação
social, ruptura familiar e conjugal, drogas, alcoolismo fome...
Em seguida João fala: “Eu não mereço
desamarrar a correia de suas sandálias”. Nas famílias, era o escravo ou a
escrava que desamarrava as sandálias dos donos da casa, quando chegavam das
estradas empoeiradas. Nem disso João Batista se julgava digno, em relação a
Jesus!
Desse jeito, é claro, o povo ia deixando João
e se reunindo em torno de Jesus. Era justamente isso que João queria: “É
preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Não só João, mas é isso que
todo profeta deve querer.
O sal e o fermento desaparecem no meio da
comida. Nós não olhamos para a luz, nem nos lembramos dela, a não ser quando
falta luz. Assim deve ser o profeta. Comportar-se no meio da sociedade como o
sal, o fermento e a luz. A glória do profeta é fazer o povo aproximar-se de
Cristo, não de si próprio. Às vezes, para o profeta sobra a cruz. Cristo veio
para acabar com os corações dilacerados. Ele é o dom de Deus, é o nosso
companheiro, amigo e irmão.
“Irmãos, estai sempre alegres! Rezai sem
cessar. Dai graças em todas as circunstâncias... Aquele que vos chamou é fiel;
ele cumprirá o que prometeu” (1Ts 5,16-18.24). A nossa sociedade precisa
urgentemente de pessoas que lhe mostrem os autênticos valores espirituais e
humanos: o desprendimento, a solidariedade, o amor, a fé, a oração, a
coerência, a responsabilidade, a honestidade, a paixão pela verdade...
A única coisa que pode vencer a insatisfação
profunda do homem atual é o testemunho pessoal e comunitário de alegria e
esperança, oxigenadas na fé em Cristo, o “Deus conosco”. Assim, os obstáculos
se transformam em trampolim.
A exemplo de João Batista, o testemunho é um
impacto que provoca interrogações, as quais resultam em esperança e alegria.
Ser testemunha é criar mistérios em volta, fazendo com que a vida sem Deus se
torne um absurdo.
Como nos tempos de João Batista, há no nosso
povo uma difusa esperança de que está para chegar algo mais seguro do que o que
está aí; algo transcendente, mas com enorme força no contingente. Aí está o
ambiente propício para o testemunho dos cristãos. Testemunho corajoso,
explícito e vivencial, como o de João. Diante do relativismo estéril, esse
testemunho apresenta o caminho, a verdade e a vida.
“Quem és tu?” Será que se alguém nos fizesse
essa pergunta, nós responderíamos corretamente, como fez João Batista?
Certa vez, uma família ganhou um cachorrinho
de raça. Quando ele chegou à casa, já havia lá um gato siamês, muito querido
pelo pessoal da família. O cachorrinho logo sentiu que aquele povo gostava
muito de gatos, e ficou com a sensação de que, se fosse gato, seria mais aceito
pela família. E ele começou a ensaiar um jeitinho de gato... e foi percebendo
que as pessoas achavam isso muito legal. Estava emplacando! E por aí foi. Com o
tempo ele até já estava conseguindo miar como o gato. O disfarce ia se ajustando
bem no seu corpo de cachorro. Isto lhe rendia mimos e aprovação das pessoas.
Assim foi crescendo o cachorrinho. Mas algo
começou a não funcionar! De vez em quando as pessoas iam percebendo que na
realidade ele não era igual aos gatos. De vez em quando escapava um latido, sem
que ele percebesse. Lentamente as pessoas foram desconfiando... Pensando bem,
só não via quem não queria. Enquanto ele era pequeno, até que a máscara de gato
passava, mas agora...
Os anos se passaram... e as pessoas foram
percebendo que ele era um cachorro; só ele não percebia. Quando ele via um
cachorro, às vezes sentia vontade de ser cachorro. Ele começou a ficar triste.
Pior quando lhe puseram o nome de Fachada. Então um dia teve coragem e voltou a
assumir a sua identidade de cachorro.
“Quem és tu?” A resposta a esta pergunta é
longa, e inclui a nossa vocação específica, isto é, aquilo para o qual Deus nos
colocou no mundo. Que abracemos com amor a nossa identidade.
“O Senhor olhou para a humildade de sua
serva”, disse Maria Santíssima. Ela foi uma testemunha completa: clara,
vivencial, humilde e perseverante. Que Maria e João Batista nos ajudem a ser
bons e humildes profetas do Senhor.
No meio de vós está aquele que vem depois de
mim; eu não mereço desamarrar suas sandálias.
MOMENTO DE REFLEXÃO
Considero fundamental vivermos sob uma ética.
Entretanto, não falo aqui de éticas morais, sociais ou culturais. Falo de uma
ética pessoal. Da ética do coração!
Seus valores, sua conduta, aquilo que torna
singular a sua essência é a sua ética! Porém, muitas vezes fica parecendo que o
amor não requer ética alguma; que quando se ama vale tudo, qualquer coisa para
viver esse sentimento. Será?!?
Não quero, de forma alguma, defender qualquer
espécie de legado sobre o que venha a ser certo e errado, até porque esses são,
a meu ver, valores absolutamente individuais; além disso, o único coração que
conheço – de fato – é o meu. O que desejo é propor uma reflexão, um olhar
atento e afetuoso para si mesmo.
Atualmente, a mídia vem tentando nos convencer
de que tudo é permitido no amor. Incentiva o sexo sem compromisso, as relações
passageiras e fugazes, como se até ele – o amor – tivesse que, definitivamente,
encaixar-se no estilo fast de viver!
De verdade, sei o quanto é difícil fazer
escolhas certeiras ou saber quando e quanto podemos apostar numa relação,
especialmente porque ela é feita de dois e não somente de um coração. Por isso
mesmo, insisto naquilo que nos é possível: mantermo-nos conectados
internamente.
Qual é a sua ética? Até onde você acredita que
vale chegar para vivenciar uma relação? A que preço? Quanto você terá que
sofrer para desistir? Quanto terá que ver pessoas doerem para entender que,
diante de sua própria dor ou da dor do outro, o melhor é rever seu lugar, sua
postura e suas escolhas?!?
Entre o vale tudo e a hipocrisia
insistentemente mantida em algumas relações, parece que a única semelhança é a
inconsistência. Faltam um motivo e uma ação realmente consistentes para o amor;
isto é, falta motivação para o coração. Falta um gancho que une o desejo à
coragem de expor os sentimentos.
Não sei o que é certo ou errado para você. Não
sei o que você deve ou não fazer. Não tenho as suas respostas. Não ando pelo
seu caminho. Portanto, da sua ética é você quem sabe! No entanto, estou certa
de que se todos nós começarmos a olhar e considerar um pouco mais o que está em
nosso coração, conseguiremos exercitar a ética a despeito do que as regras
tentam nos impor.
Sem julgamentos, sem preconceitos, sem
verdades absolutas. Sem vaidade, sem orgulho, sem prepotência. Apenas respeito
para consigo mesmo e para com o outro. Apenas compaixão e dignidade para com a
própria dor e para com a dor do outro. E, nesta mesma medida, apenas coração...
ainda que isso signifique abrir mão de uma relação ou de um desejo de
relacionar-se... por amor a si mesmo e ao outro! (Rosana Braga)
E até que nos encontremos novamente,
que Deus lhe guarde serenamente
na palma de Suas mãos.
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