Sábado, 14 de maio de 2022
“Muitas vezes lamentaríamos se nossos
desejos fossem atendidos.” (Esopo)
EVANGELHO DE HOJE
Jo
15,9-17
—
O Senhor esteja convosco.
—
Ele está no meio de nós.
—
PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, + segundo João
—
Glória a vós, Senhor!
Como
o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor.
Se
guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu
tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.
Tenho-vos
dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo.
O
meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
Ninguém
tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.
Vós
sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.
Já
vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas
tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito
conhecer.
Não
me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que
vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu
nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.
Isto
vos mando: Que vos ameis uns aos outros.
Palavras
da Salvação
Glória
a vós Senhor
MEDITAÇÃO DO EVANGELHO
Padre Antonio Queiroz (In Memorian)
Não fostes vós que me
escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.
Hoje nós celebramos a
festa do Apóstolo S. Matias. A escolha dele, em substituição a Judas
Iscariotes, está narrada na primeira Leitura: At 1,15-26. Fizeram um sorteio.
Nós hoje escolhemos os nossos líderes geralmente através da votação. Mas no
fundo quem escolhe é sempre Deus, seja através do sorteio, da votação, ou de
qualquer outro sistema eleitoral.
Não somos nós que
escolhemos a Deus, mas é ele que nos escolhe. Da nossa parte, cabe a
disponibilidade, como teve S. Matias. Ele não escolheu ser Apóstolo, foi a
Igreja que o escolheu. Ou melhor, foi Deus que o escolheu através da Igreja.
É interessante o
discursinho de S. Pedro, que está na primeira Leitura. O qur ele fez foi um
discernimento junto com a Comunidade, isto é, uma busca da vontade de Deus.
Usando outras palavras, Pedro disse: Deus quer que haja doze Apóstolos, porque
foi assim que Jesus constituiu o grupo, que é uma continuação das doze tribos
de Israel. Mas Judas nos deixou. Portanto, Deus quer que um de vocês ocupe o
lugar dele.
Com essas palavras,
Pedro motivou a Igreja ali reunida, umas cento e vinte pessoas, a buscarem uma
saída, indicando candidatos para preencher a vaga. Pedro ainda deu critérios
para a escolha: “Há homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o
Senhor Jesus vivia no meio de nós, a começar pelo batismo de João até o dia em
que foi elevado ao céu. Agora, é preciso que um deles se junte a nós”. Esses
são os chamados setenta de dois discípulos. A Comunidade trocou idéias e
apresentou Matias e José Barsabás.
A Comunidade escolheu
através de um sorteio. Nós hoje costumamos fazer votação ou outro sistema
qualquer. É a mesma coisa. No fundo, quem escolhe é Deus, seja através do
sorteio, ou dos votos, ou de qualquer outro sistema eleitoral.
O importante é a
Comunidade fazer as três coisas que essa Comunidade fez: 1ª) Ter o desejo de
fazer a vontade de Deus, não a própria vontade. 2ª) Rezar, pedindo a Deus que
ilumine e dirija na hora de votar ou de escolher. 3ª) Os membros fazerem a sua
parte, conversando entre si e trocar idéias sobrem quem é o mais indicado para
o cargo.
Deus quer que os postos
vagos nas pastorais, nos ministérios e nos vários serviços da nossa Comunidade
sejam preenchidos. Vários motivos levam um cargo a ficar vago: doença, mudança
da família para outra cidade, impossibilidade de continuar, devido a
compromissos pessoais ou familiares, devido a doença. E também por um motivo
muito comum: a pessoa que exercia o cargo parou de participar da Comunidade.
O próprio fato de haver
uma função vaga é um chamado de Deus para todos os membros da Comunidade. É
algo que nos inquieta. A primeira coisa que a gente pensa é: Será q eu tenho
condições de assumir essa função? Ou: Será que eu não poderia convencer alguém
a assumi-la?
Imagine se S. Pedro
aparecesse hoje na nossa Comunidade, convivesse uns dias com ela e depois
fizesse um discursinho na hora da Missa: “Irmãos, eu descobri que tal cargo
está vago. Isso não pode acontecer! Deus não quer isso! Peço a vocês que se
reúnam, conversem entre si e apresentem alguns candidatos para fazermos uma
votação”. Que bonito seria, não? Que aprendamos a lição da escolha de Matias!
Uma função vaga na nossa Comunidade é, por si mesma, um chamamento de Deus a
nós. Que nos esforcemos para que, de uma forma ou de outra, essa função seja
preenchida.
No Evangelho, Jesus fala
que o seu amor nasce da obediência aos seus mandamentos: “Se guardardes os meus
mandamentos, permanecereis no meu amor”. Essa expressão “no meu amor” refere-se
não apenas ao nosso amor a ele, mas ao amor que ele carrega no coração, que é o
amor que existe dentro da SS. Trindade e que foi derramado em nossos corações
(Rm 5,5).
De fato, o amor de Deus
não é apenas sentimento, ele se mostra nas nossas ações e atitudes. “Nem todo
aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele
que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).
Um dos mandamentos de
Jesus é pertencer à sua Igreja, que é una, santa, católica e apostólica.
E neste Evangelho Jesus
fala também: “Eu não vos chamo servos, mas amigos”. Ele quer ser nosso amigo.
Vamos também ser amigos dele, amigos fiéis e sinceros, como ele é conosco.
“Ninguém tem amor maior
do que aquele que dá sua vida pelos amigos.” O Apóstolo S. Matias pregou a
Palavra de Deus na Palestina, e depois na Ásia Menor, onde morreu mártir. Diz a
tradição que ele foi apedrejado e depois morto a machadadas. Portanto, deu a
vida por Cristo e pela santa Igreja.
Existe o chamado
martírio incruento, isto é, martírio sem sangue. São cristãos que dão a vida
por Cristo e pela Igreja, e morrem por esta causa. Diante de Deus, o martírio
incruento tem o mesmo valor do martírio de sangue.
Certa vez, um pai
comprou para o seu filho de sete anos uma pipa, brinquedo que em alguns lugares
é chamado de papagaio. O menino foi direto para o terreiro, a fim de soltar a
pipa. Mas ele não conseguiu levantá-la. Por mais que se esforçava, a pipa não
subia. O garoto corria pra lá e pra cá, mas nada.
O pai viu, veio, pegou a
linha e com facilidade levantou a pipa, mas só a uns dois metros do chão, para
que o menino fizesse o resto. Passou a linha para o filho e explicou como fazer.
Aí sim, o papagaio se levantou, foi para as alturas e o garotinho ficou muito
feliz.
S. Pedro, na eleição do
Apóstolo Matias, fez como esse pai. Ele não levantou a pipa mas ajudou o filho
a fazê-la. S. Pedro não escolheu o sucessor de Judas, mas incentivou e orientou
a Comunidade como fazê-lo. As pessoas têm muitas pipas para serem levantadas.
Que tal nós darmos uma mãozinha? Feliz daquele e daquela que, apesar do vento,
não deixa a sua pipa cair nem se enroscar nas árvores!
Que Maria Santíssima e
os Apóstolos S. Pedro e S. Matias nos ajudem a levar em frente a nossa
Comunidade, observando os mandamentos de Jesus.
Não fostes vós que me
escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.
MOMENTO DE REFLEXÃO
Não o que eu quero,
porém o que tu queres.” (Mc 14, 36)
Jesus está no Horto das
Oliveiras, na propriedade chamada Getsêmani. A hora tão esperada chegou. É o
momento crucial de toda a sua existência. Ele se prostra por terra e suplica a
Deus, chamando-o de “Pai”, numa confidência cheia de ternura, para “afastar
dele esse cálice” (cf. Mt 14, 36), expressão que se refere à sua Paixão e
Morte. Jesus pede ao Pai que aquela hora passe… Mas, enfim, entrega-se
completamente à vontade de Deus:
Não o que eu quero,
porém o que tu queres
Jesus sabe que a sua
Paixão não é um acontecimento casual nem simplesmente uma decisão dos homens,
mas é um plano de Deus. Ele será processado e rejeitado pelos homens; o
“cálice”, porém, vem das mãos de Deus.
Jesus nos ensina que o
Pai tem um plano de amor para cada um de nós, que Ele nos ama com um amor pessoal
e, se acreditarmos nesse amor e correspondermos com o nosso amor – é essa a
condição –, Ele fará com que tudo seja finalizado para o bem. Para Jesus, nada
aconteceu por acaso, nem sequer a Paixão e a Morte.
Depois aconteceu a
Ressurreição, cuja festividade solene celebramos neste mês.
O exemplo de Jesus, o
Ressuscitado, serve de luz para a nossa vida. Devemos saber interpretar tudo o
que vem ao nosso encontro, o que acontece, o que nos rodeia e também tudo o que
nos faz sofrer, como vontade de Deus que nos ama ou como uma permissão de Deus
que nos ama também assim. Então, tudo na vida terá sentido, tudo será
extremamente útil, mesmo aquilo que, na hora, nos parece incompreensível e
absurdo, mesmo aquilo que nos pode fazer precipitar numa angústia mortal, como
aconteceu com Jesus. Será suficiente que, junto com ele, saibamos repetir, com
um ato de confiança total no amor do Pai:
Não o que eu quero,
porém o que tu queres
A vontade dele é que
vivamos, que lhe agradeçamos com alegria pelas dádivas da vida; mas, às vezes,
ela certamente não corresponde ao que imaginamos. Não é, por exemplo, uma
situação diante da qual temos de nos resignar, em especial quando deparamos com
a dor, nem uma sucessão de atos monótonos espalhados ao longo da nossa vida.
A vontade de Deus é a
sua voz que nos fala e nos convida continuamente, é o modo pelo qual ele nos
expressa o seu amor, para nos dar a sua plenitude de Vida.
Poderíamos fazer uma representação
disso com a imagem do Sol, cujos raios seriam a sua vontade para cada um de
nós. Cada pessoa caminha ao longo de um raio, diferente do raio de quem está ao
lado, mas sempre um raio de sol, ou seja, a vontade de Deus. Portanto, todos
nós fazemos uma única vontade, a de Deus; no entanto, ela é diferente para cada
um. Os raios, quanto mais se aproximam do Sol, mais se aproximam entre si.
Também nós, quanto mais nos aproximamos de Deus, pela observância sempre mais
perfeita da vontade divina, mais nos aproximamos entre nós… até sermos todos
um.
Vivendo assim, tudo na
nossa vida pode mudar. Em vez de procurarmos a quem gostamos e amar somente a
eles, podemos dar atenção a todos aqueles que a vontade de Deus põe ao nosso
lado. Em vez de procurarmos aquilo de que gostamos, podemos nos dedicar àquelas
coisas que a vontade de Deus nos sugere e preferi-las. Se estivermos
inteiramente projetados na vontade divina daquele momento (“o que tu queres”),
seremos consequentemente levados ao desapego de todas as coisas e do nosso eu
(“não o que eu quero”). Esse desapego não é tanto resultado de uma busca
proposital, porque se deve buscar só a Deus, mas acontece de fato. Então a
alegria será completa. Basta mergulharmos no momento que passa e cumprir
naquele instante a vontade de Deus, repetindo:
Não o que eu quero,
porém o que tu queres
O momento que passou não
existe mais; o momento futuro ainda não está em nosso poder. Acontece como a um
passageiro no trem: para chegar ao destino, ele não fica andando para frente e
para trás, mas fica sentado no seu lugar. Assim, devemos ficar firmes no
presente; o trem do tempo viaja por si. Só podemos amar a Deus no momento
presente que nos é dado, pronunciando o próprio “sim” vigoroso, radical,
ativíssimo, à vontade dele.
Portanto, vamos amar
aquele sorriso que temos a dar, aquele trabalho a ser executado, aquele carro a
ser conduzido, aquela refeição a ser preparada, aquela atividade a ser
organizada, aquela pessoa que sofre ao nosso lado.
Nem sequer a provação ou
o sofrimento nos devem assustar se, com Jesus, soubermos reconhecer neles a
vontade de Deus, ou seja, o seu amor para cada um de nós. Poderemos até mesmo
rezar assim:
“Senhor, faze que eu
nada tenha a temer, porque tudo o que vai acontecer será a tua vontade e nada mais!
Senhor, faze que eu não tenha outro desejo, porque nada é mais desejável do que
exclusivamente a tua vontade.
O que é importante na
vida? Importante é a tua vontade.
Faze que nada me
perturbe, porque tudo é a tua vontade. Faze que eu não me agite com nada,
porque tudo é tua vontade.”
Chiara Lubich
UM ABENÇOADO DIA PRA VOCÊ...
E até que nos encontremos novamente,
que Deus lhe guarde serenamente
na palma de Suas mãos.
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